domingo, 9 de abril de 2017

Amor em Cacos

Ele abriu a porta e a bateu com força ao entrar em casa naquela noite. Trancou e jogou as chaves em cima da bancada. Sequer acendeu a luz. Mesmo acostumado com o lugar, era desajeitado demais para atravessar a sala na escuridão, sem causar algum estrago ou dar origem a algum hematoma no seu corpo. Esbarrou em um móvel. Rosnou vários palavrões para aliviar a dor que sentiu. Mas o móvel estremeceu com a pancada, o que acabou derrubando o porta retrato que coloquei emoldurando nossa foto... aquela de nós dois sentados no banquinho do parque, sob a sombra de um salgueiro. Nosso início de namoro estampado ali: sorrisos fáceis, mãos dadas, suspiros, olhos brilhantes... agora em cacos. Ele não se importou com os danos. Depois... depois ele pensava nisso. Agora não. Agora ele havia acabado de chegar. Pisou em algo estranho. Por instinto, se segurou nas cortinas, evitando um escorregão. Por pouco não arrancou-as do lugar. Resmungou, ainda mais irritado. Parecia algo úmido. Limpou a sola do tênis no tapete que eu escolhi para a nossa sala. Depois... Depois ele poderia conferir o que era aquilo. Mas agora não. Agora ele estava faminto. Foi até a cozinha e usou o microondas para aquecer o que sobrou da comida que cozinhamos juntos no dia anterior. As louças sujas foram largadas na pia. Depois... depois ele iria lavar. Agora não. Agora já é muito tarde. Caminhou até o quarto, seguro sob a luz do corredor que eu deixei acesa. Dessa vez não derrubou nada. Tirou o casaco que eu dei para ele de presente no último aniversário e a calça jeans que ficaram ali, amarrotados, em cima da poltrona no canto do quarto. Depois... depois ele guardaria. Agora não. Agora ele estava cansado demais. Ele se jogou na cama limpa, cheirosa e aconchegante que eu arrumei para esperá-lo. Dormiu para esquecer os problemas que poderia ter resolvido, e que decidiu deixar para amanhã... ou depois. Dormiu sem perceber que eu cuidei de tudo e de cada detalhe até ali. Dormiu sem dar valor algum ao que tinha e também não pôde ver que lá, entre os cacos do porta retrato, estava o meu coração, no chão, com a marca do seu sapato.

3 comentários:

  1. Gostei do texto, só fiquei em dúvida se algumas coisas são para interpretar metaforicamente, o final, mais precisamente. Ao ler foi como estar numa montanha-russa, mas na hora da descida brusca não teve aquele friozinho na barriga. Quanto a pontuação: as reticências, são realmente para passar a ideia de dúvida ou suspensão de uma ideia ou é uma afirmação do tipo: Depois.(ponto final, decisão) Depois ele faria "tal coisa"? Porque eu li como se fosse uma afirmação, deu mais ênfase ao texto. É uma boa atentar-se as vírgulas também, as vezes elas nos fazem fazer uma pausa e atrapalhar o pensamento. O tempo em que a história ocorre, cuidado na oscilação, isto as vezes nos confunde quando estamos a escrever em terceira pessoa ou em uma narrativa direta. De todo, parabéns. Gostei bastante.

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    1. Bom dia, Sissy. Metaforicamente, claro! As reticências servem para dar uma ideia de continuidade e de hesitação como se fosse na língua falada. Creio que as vírgulas e o tempo verbal foram bem colocados. Muito obrigada pelo feedback.

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  2. Aquele mais ali ficou tosco kkkkk corrija-o para um "mas". Obrigado :p

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